Fim de feira no Sertão, a noite caindo·antes do tempo, os mascates desarrumando as barracas sob o calor escaldante, o forasteiro caminhando tranquilo pela movimentada Rua do Mercado pediu uma bicada na primeira esquina, uma segunda mais adiante e dali observou - com seus olhos de cão danado - a escassos metros de distância, o sono sereno e sossegado de sua própria e próxima vítima.
Estirado numa até então confortável espreguiçadeira o rico fazendeiro Zé Nobre descansava na calçada de sua pacata residência, os olhos fechados, as curtas pernas cruzadas, a mão direita apoiando a pequena cabeça repousada sobre improvisado travesseiro. Quem sabe, até sonhasse!... E mil razões tinha o coronel Zé Nobre para tantos sonhos: o filho único no melhor colégio da região, futuro doutor de anel no dedo e diploma na parede da sala de visitas, a bela fazenda cada vez mais próspera após a construção do Açude Novo, o gado farto de tanta pastagem, o preço do leite subindo, tudo de bom sorrindo para o rico fazendeiro, homem pacato dedidado à família e aos negócios. Minutos antes o coronel Zé Nobre saíra à calçada, fitando com seus olhos miúdos a gente que passava, escutando com dificuldade o relinchar de bestas e cavalos retornando ao campo sob o peso de seus donos e mochilas abarrotadas de farinha, carne seca, rapaduras e quinquilharias dais mas diversas.
Maria Mulungú aproximou-se, a trouxa de roupas na cabeça totalmente embranquecida pelo vendaval do tempo, o pigarrento cachimbo mil vezes triturado pela fértil imaginação pois dentes já não os tinha na boca sempre fedendo a cachaça.
- Boas tarde, coroné.
- Como vai, Maria. Bebeu muito hoje? - sorriu o fazendeiro zombando da velha lavadeira, vinda ninguém sabe de onde, há muitos, muitos anos.
- Num bebo não coroné... é tudo mentira dos moleque - justificou-se entre um arroto e outro.
- Esses moleques não prestam mesmo, né, Maria? - o coronel Zé Nobre gargalhava brincando com aquela preta retinta de quem todo mundo gostava.
- Dizê que a preta véia bebe cana - respondia com raiva, a baba espessa escorregando pelos cantos da boca banguela - é mentira dos muleque, coroné. Num bebo não, enfatizava ainda mais segurando o amarrotado cachimbo que parecia escorregar dos seus beiços.
sexta-feira, 16 de março de 2012
domingo, 11 de março de 2012
A lição de um sorveteiro
Era verão, e eu estava gozando alguns dias de férias, com um amigo, na pequena e simpática cidade de Iguape. Por incrível que pareça, houve uma vez um verão, e este camelo que batuca estas mal datilografadas linhas, esteve em férias. Iguape é uma cidade do Vale do Ribeira, meio interiorana, meio litorânea, para se chegar à praia é preciso atravessar o rio e cortar a Ilha Comprida.
Fomos a uma sorveteria, cujo proprietário - por ser uma cidade onde o turismo ainda não conseguiu estragar - percebeu que éramos forasteiros. E havia tantos tipos e sabores de sorvete, que não sabíamos como escolher. Havia sorvete de queijo, de chiclete, de caramelo, e das mais variadas frutas. E das mais inacreditáveis misturas, tipo abacaxi com goiaba, caju com mel, o diabo. Alguns desses gelados tinham nomes pitorescos, e nós não sabíamos o que significavam.
Para ajudar a nossa escolha, o sorveteiro ia nos dando amostras. E contando histórias. "Esse sorvete eu fiz por engano, misturei coisas erradas, e ficou bom. Estava pensando na morte da bezerra, fiz besteira, mas valeu a pena. O duro foi lembrar, depois a fórmula usada por engano, para repeti-la. Mas ficou gostoso, prove". E nós provamos, e gostamos. Outro, ele tinha aprendido na Bahia, em um congresso de sorveteiros. Outro, ele tinha copiado de uma revista estrangeira. e, de amostra em amostra, fomos ficando gelados e de barriga cheia, sem conseguir optar por nenhum sabor. E, quando demos pela coisa, nem podíamos optar, pois mal conseguíamos suportar a palavra sorvete. Estávamos empanturrados. Assim mesmo, para não ficar chato, pedimos cada um seu sorvete, pagamos, e fomos embora.
Bem, o fato é que existem milhões de sorveteiros no mundo. Todos querem vender, fazer freguesia, e para isso procuram fazer o melhor. Mas nunca tínhamos conhecido alguém com tanto amor pela profissão. Um sorveteiro que fazia pesquisas, cursos, viajava para conhecer coisas novas do seu metier. Alguém capaz de escrever livros ou fazer palestras sobre essa coisa saborosa que a gente costuma chupar e engolir sem pensar muito.
O moral da história, é que esse passeio de férias, entre praias, pinga de banana, muito sorvete e muita cerveja, e "outras cositas más", foi instrutiva para mim. Comecei acreditar mais no futuro do mundo e do Brasil, coisa difícil de se acreditar. Afinal, existe, numa cidade pequena do Estado de São Paulo, quase divisa com o Paraná, no paupérrimo Vale do Ribeira, um sorveteiro que gosta e acredita no sorvete. Porque, infelizmente, existem médicos e donos de hospitais, professores e donos de escolas, jornalistas e donos de jornal, que simplesmente exercem suas funções para ganhar dinheiro, para sobreviver, sem qualquer indício de amor, sem qualquer tesão.
Publicado em 15 de maio de 1990 no Repórter da Cidade - Olho Vivo
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Deficientes, negros, todo mundo, uni-vos
Permitam que eu me apresente. Sou um mamífero da espécie homo sapiens, macho (mas não machista ou machão), quase setuagenário, paulistano, paulista, brasileiro, eurodescedente. Sou jornalista, aposentado por invalidês, mas ainda sirvo para alguma coisa. Por exemplo, escrever com meu computador falante, munido com o programa Dos Vox, elaborado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Sou DV e BV, ou deficiente visual com baixíssima visão. Mas podem me chamar de cego, ceguinho ou cegueta, não tenho medo de palavras. Ou melhor, não tenho preconceito contra palavras. Ando com uma bengala branca que me serve de olhos e de documento de cego. Não tenho qualquer religião, não acredito em duendes, mas conto sempre com uma legião de anjos-da-guarda, todos com braços e pernas, sem asas. Alguns são profissionais, treinados, do Metrô ou da CPTM. Outros são amadores, amigos do peito ou bons samaritanos que encontro casualmente.
Alguns não sabem como conduzir um cego, mas a todos agradeço pela boa vontade. Só quem se torna deficiente descobre como realmente o brasileiro sabe ser humano e solidário.
Estou em busca de uma frase para iniciar bem minha jornada na Folha Metropolitana, no mês de dezembro e no espírito natalino, que deve contagiar a todos, mesmo os não cristãos, desde que não sejam chatos. Ia quase escrevendo que queria entrar com o pé direito, mas isso poderia ser considerado como preconceito contra o pé esquerdo. Não quero ser politicamente correto por que não gosto de pensar politicamente, e já não sei mais (justamente por causa dos políticos) o sentido da palavra ‘correto’.
Há muitos dias e muitas campanhas contra tudo que se considera discriminação. Há muita gente que se sente discriminada, e acredito que essas coisas é que se tornam discriminatórias. É o Dia da Consciência Negra, da Mulher, do Deficiente, da Criança e do Adolescente, contra a agressão à mulher, contra a homofobia, e uma série interminável de reticências e etcéteras. Tudo isso poderia ser transformado em Dia da Consciência Humana, contra toda espécie de discriminação e de violência.
Essa data poderia ser comemorada de 1 de janeiro a 31 de dezembro. O único problema é que não haveria feriado para comemorá-la.
Ah, achei a frase: “Seres humanos de todos os sexos, nacionalidades, etnias, crenças (e descrenças), partidos, ideologias, torcidas, doenças, taras e manias, uni-vos (respeitando as diferenças e sem perder as características individuais e grupais). Nada tendes a perder se não os vossos preconceitos, complexos e neuras”.
Publicado na Folha Metropolitana em 03/12/2011
Sou DV e BV, ou deficiente visual com baixíssima visão. Mas podem me chamar de cego, ceguinho ou cegueta, não tenho medo de palavras. Ou melhor, não tenho preconceito contra palavras. Ando com uma bengala branca que me serve de olhos e de documento de cego. Não tenho qualquer religião, não acredito em duendes, mas conto sempre com uma legião de anjos-da-guarda, todos com braços e pernas, sem asas. Alguns são profissionais, treinados, do Metrô ou da CPTM. Outros são amadores, amigos do peito ou bons samaritanos que encontro casualmente.
Alguns não sabem como conduzir um cego, mas a todos agradeço pela boa vontade. Só quem se torna deficiente descobre como realmente o brasileiro sabe ser humano e solidário.
Estou em busca de uma frase para iniciar bem minha jornada na Folha Metropolitana, no mês de dezembro e no espírito natalino, que deve contagiar a todos, mesmo os não cristãos, desde que não sejam chatos. Ia quase escrevendo que queria entrar com o pé direito, mas isso poderia ser considerado como preconceito contra o pé esquerdo. Não quero ser politicamente correto por que não gosto de pensar politicamente, e já não sei mais (justamente por causa dos políticos) o sentido da palavra ‘correto’.
Há muitos dias e muitas campanhas contra tudo que se considera discriminação. Há muita gente que se sente discriminada, e acredito que essas coisas é que se tornam discriminatórias. É o Dia da Consciência Negra, da Mulher, do Deficiente, da Criança e do Adolescente, contra a agressão à mulher, contra a homofobia, e uma série interminável de reticências e etcéteras. Tudo isso poderia ser transformado em Dia da Consciência Humana, contra toda espécie de discriminação e de violência.
Essa data poderia ser comemorada de 1 de janeiro a 31 de dezembro. O único problema é que não haveria feriado para comemorá-la.
Ah, achei a frase: “Seres humanos de todos os sexos, nacionalidades, etnias, crenças (e descrenças), partidos, ideologias, torcidas, doenças, taras e manias, uni-vos (respeitando as diferenças e sem perder as características individuais e grupais). Nada tendes a perder se não os vossos preconceitos, complexos e neuras”.
Publicado na Folha Metropolitana em 03/12/2011
Mão direita de Deus e esquerda de Lula
O Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão foi um dos pioneiros da Aviação. Brasileiro, nascido em Santos, viveu em Portugal, onde era protegido do rei. Lá começou a tentar inventar a Passarola, uma engenhoca com formato de um grande pássaro, com um mecanismo que fazia agitar as grandes asas e alçar vôo. A coisa chegou a sair do chão, pilotada pelo padre, mas acabou se chocando com uma montanha, quase matando o pobre inventor. Desacreditado, amaldiçoado, ele foi para a Espanha, onde morreu solitário em um hospital de Toledo. E virou personagem do escritor português José Saramago, no romance ‘Memorial do Convento’.
Não sei até onde vai a realidade histórica e onde começa a fantasia do irreverente e ateu escritor. No romance, o padre brasileiro tinha idéias extravagantes que escandalizavam os católicos, como se não bastasse a mania de inventar uma máquina voadora. Uma delas é que Deus é maneta. Se os justos, que amam Deus acima de tudo vão ao Céu, à sua mão direita, se os outros vão para o Inferno, ninguém fica à sua esquerda. Conclue-se que o Todo Poderoso não tem a mão esquerda.
Outrora a esquerda representava tudo que há de ruim. O diabo era canhoto e as crianças que tinham mais destreza com a mão esquerda eram obrigadas a ser reeducadas. As mães amarravam a sua mão esquerda para que os coitados perdessem essa peculiaridade. Mas hoje as coisas mudaram e a esquerda está na moda.
No Brasil, após os anos de chumbo, não existe direita. O espectro político-ideológico vai do centro à esquerda, em várias nuances. Mas os que pretendem ser os donos da História taxam de direitistas todos os que discordam deles. E essa taxação equivale a xingar a progenitora deles.
Getúlio Vargas começou namorando o Nazismo, acabou virando americanista de carteirinha e acabou namorando os comunistas, com apoio de Luiz Carlos Prestes. Na época de sua ditadura Plínio Salgado fundou o Integralismo, versão tupiniquim do Nazismo. Recentemente o histriônico Eneas fez discursos nitidamente direitistas, mas seu partido, o Prona fornecia legenda a quem comprasse seu livro, sem compromisso ideológico.
Hoje, o espectro político está embaralhado. Maluf, Collor e Delfim Neto, que eram satanizados, foram entronizados no Paraíso, à mão esquerda de Lula. Quem encarna o Satã de Direita é o PSDB. Na última campanha eleitoral andaram espalhando que Serra, se eleito, acabaria com a Bolsa Família, o Salário Mínimo, as férias e o descanso remunerado aos domingos e feriados. Se possível revogaria a Lei Áurea. Muita gente que não gosta do PT votou em Dilma no segundo turno, para exorcizá-lo.
Enfim, hoje Deus está à esquerda e o Diabo à direita. Será que tucano come criancinha?
Publicado na Folha Metropolitana em 21/10/2011
Não sei até onde vai a realidade histórica e onde começa a fantasia do irreverente e ateu escritor. No romance, o padre brasileiro tinha idéias extravagantes que escandalizavam os católicos, como se não bastasse a mania de inventar uma máquina voadora. Uma delas é que Deus é maneta. Se os justos, que amam Deus acima de tudo vão ao Céu, à sua mão direita, se os outros vão para o Inferno, ninguém fica à sua esquerda. Conclue-se que o Todo Poderoso não tem a mão esquerda.
Outrora a esquerda representava tudo que há de ruim. O diabo era canhoto e as crianças que tinham mais destreza com a mão esquerda eram obrigadas a ser reeducadas. As mães amarravam a sua mão esquerda para que os coitados perdessem essa peculiaridade. Mas hoje as coisas mudaram e a esquerda está na moda.
No Brasil, após os anos de chumbo, não existe direita. O espectro político-ideológico vai do centro à esquerda, em várias nuances. Mas os que pretendem ser os donos da História taxam de direitistas todos os que discordam deles. E essa taxação equivale a xingar a progenitora deles.
Getúlio Vargas começou namorando o Nazismo, acabou virando americanista de carteirinha e acabou namorando os comunistas, com apoio de Luiz Carlos Prestes. Na época de sua ditadura Plínio Salgado fundou o Integralismo, versão tupiniquim do Nazismo. Recentemente o histriônico Eneas fez discursos nitidamente direitistas, mas seu partido, o Prona fornecia legenda a quem comprasse seu livro, sem compromisso ideológico.
Hoje, o espectro político está embaralhado. Maluf, Collor e Delfim Neto, que eram satanizados, foram entronizados no Paraíso, à mão esquerda de Lula. Quem encarna o Satã de Direita é o PSDB. Na última campanha eleitoral andaram espalhando que Serra, se eleito, acabaria com a Bolsa Família, o Salário Mínimo, as férias e o descanso remunerado aos domingos e feriados. Se possível revogaria a Lei Áurea. Muita gente que não gosta do PT votou em Dilma no segundo turno, para exorcizá-lo.
Enfim, hoje Deus está à esquerda e o Diabo à direita. Será que tucano come criancinha?
Publicado na Folha Metropolitana em 21/10/2011
Escândalos acima de qualquer ideologia
Ganhei de uma amiga uma coleção de CDs da revista Veja, gravados pela Fundação Dorina Nowil, com uso exclusivo para deficientes visuais. São de 2006 a 2009. É interessante rever notícias passadas, e ainda há muitos artigos interessantes e reportagens instrutivas, que não perdem a atualidade. Sem contar com o sempre irônico e filosófico Millôr Fernandes. Numa delas ele traz uma fictícia MP do Governo: “Ficam proibidos novos escândalos até o fim do ano. A agenda está lotada.” É de 2009, mas atualíssima.
Muita gente critica a Veja por suas constantes críticas ao PT. Como se nunca antes um órgão de imprensa se especializasse em criticar quem está no governo. E se não houvesse outros órgãos que vivem a louvar o PT e desancar a oposição, taxando-a de direitista, inimiga dos trabalhadores. A revista defende o capitalismo, e é coerente, pois pertence a um grande grupo econômico. Se o melhor do capitalismo é ser
capitalista, como dizia há tempos a propaganda de um banco, o melhor do comunismo é ser sindicalista ou membro do comitê central do único partido permitido.
O escândalo da temporada envolve o Ministério dos Esportes e seu programa ‘Terceiro Tempo’, que visa a oferecer prática esportiva a crianças. Esse ministério pertence ao PCdoB, e seu ex-comandante (que saiu do governo na última quinta-feira), Orlando Silva. Ele não é o ‘cantor das multidões’, mas já atuou em Guarulhos, de forma que não posso deixar de mencionar o fato. Faço- com tristeza, pois embora não acredite mais na utopia comunista, respeito os que ainda acreditam. Conheço e privo da amizade de muitos deles e boto a mão no fogo por suas boas intenções. Mas a honestidade, bem como a desonestidade não é monopólio de qualquer partido, ideologia ou religião.
O único argumento dos que são acusados de corrupção é alegar que seus adversários também o são. Isso só demonstra que a safadeza está generalizada. Essa constatação vem ao encontro das palavras da sábia tia Zulmira, personagem de Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, da ‘Última Hora’ dos anos 70: «Restaure-se a honestidade ou locupletemo-nos todos.»
Nessa época só os políticos aliados do governo militar eram corruptos. Os outros, que faziam oposição ainda não tinham aprendido o ofício. Mas a corrupção é coisa antiga, embora hoje esteja mais democratizada.
Diz uma crônica, que quando D. Pedro II seguia para o exílio, após a proclamação da República, um ex-ministro que o acompanhava reclamava. O ex-imperador voltava para a terra dos seus pais, que ainda lá reinavam, e ele, ex-ministro nada tinha. Ao que D. Pedro respondeu: «Azar seu. Por que não roubou, como os outros?».
Publicado na Folha Metropolitana em 28/10/2011
Muita gente critica a Veja por suas constantes críticas ao PT. Como se nunca antes um órgão de imprensa se especializasse em criticar quem está no governo. E se não houvesse outros órgãos que vivem a louvar o PT e desancar a oposição, taxando-a de direitista, inimiga dos trabalhadores. A revista defende o capitalismo, e é coerente, pois pertence a um grande grupo econômico. Se o melhor do capitalismo é ser
capitalista, como dizia há tempos a propaganda de um banco, o melhor do comunismo é ser sindicalista ou membro do comitê central do único partido permitido.
O escândalo da temporada envolve o Ministério dos Esportes e seu programa ‘Terceiro Tempo’, que visa a oferecer prática esportiva a crianças. Esse ministério pertence ao PCdoB, e seu ex-comandante (que saiu do governo na última quinta-feira), Orlando Silva. Ele não é o ‘cantor das multidões’, mas já atuou em Guarulhos, de forma que não posso deixar de mencionar o fato. Faço- com tristeza, pois embora não acredite mais na utopia comunista, respeito os que ainda acreditam. Conheço e privo da amizade de muitos deles e boto a mão no fogo por suas boas intenções. Mas a honestidade, bem como a desonestidade não é monopólio de qualquer partido, ideologia ou religião.
O único argumento dos que são acusados de corrupção é alegar que seus adversários também o são. Isso só demonstra que a safadeza está generalizada. Essa constatação vem ao encontro das palavras da sábia tia Zulmira, personagem de Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, da ‘Última Hora’ dos anos 70: «Restaure-se a honestidade ou locupletemo-nos todos.»
Nessa época só os políticos aliados do governo militar eram corruptos. Os outros, que faziam oposição ainda não tinham aprendido o ofício. Mas a corrupção é coisa antiga, embora hoje esteja mais democratizada.
Diz uma crônica, que quando D. Pedro II seguia para o exílio, após a proclamação da República, um ex-ministro que o acompanhava reclamava. O ex-imperador voltava para a terra dos seus pais, que ainda lá reinavam, e ele, ex-ministro nada tinha. Ao que D. Pedro respondeu: «Azar seu. Por que não roubou, como os outros?».
Publicado na Folha Metropolitana em 28/10/2011
Curtindo o mutante idioma brasileiro
Eu e meu jovem amigo Wender Cardoso, o ‘Mãozinha’, resolvemos uma vez fazer um poema a quatro mãos. Seria um diálogo entre um velho e um jovem, e pretendíamos apresentá-lo teatralmente em um sarau, desses que realizávamos sempre na Biblioteca Monteiro Lobato e outros locais. Eu fazia o velho e ele o jovem, em uma discussão. Improvisávamos os versos enquanto caminhávamos pelas ruas de Bonsucesso, Ponte Alta e adjacências, e ele ia anotando-os em um caderno. Ele teve que ir embora para Minas, e não sei se levou o caderno ou se o perdeu. A obra não foi concluída, e creio que a literatura universal nada perdeu com isso.
O ‘Mãozinha’, como a maioria dos brasileiros, mesmo os escolarizados, não era muito bom em gramática, principalmente em tempo de verbos e concordância, e misturava a segunda com a terceira pessoa, entre o «tu» e o «você». Eu tentava corrigir, vertendo tudo para o «você» ou «o senhor», mas acabei concluindo que não dava certo. As coisas ficavam sem graça, forçadas, e resolvi deixar como estava.
Concluí que as regras gramaticais não são dogmas religiosos, e às vezes o errado fica mais bonito e verdadeiro.
Devemos reconhecer que temos o nosso próprio idioma, muito parecido com o Português, mas não idêntico. Talvez, pelo menos, um dialeto. Podíamos falar em dialetos regionais, mas os brasileiros de todas as regiões e os estrangeiros estão tão misturados que hoje nós, paulistas, falamos um pouco do italiano e um pouco do nordestino. Esse dialeto, nascido da palavra falada, não tem regras, o que o torna mais variado,rico e bonito.
Encontrei-me um dia destes com uma velha senhora portuguesa que pediu-me uma informação. Não entendi uma palavra do que ela disse. Nem tanto pelos termos usados, mas principalmente pelo sotaque e pela rapidez com que ela falava. Não sei se ela chegou recentemente da ‘santa terrinha’ ou se vive reclusa com a família e não tem prática em falar o ‘brasileiro’. Senti muito, mas devo ter parecido mal educado e não pude dar a informação pedida. Conheço outros lusitanos que falam mais pausadamente e consigo entender o que falam, embora em sua linguagem, por sinal belíssima. Conheço também alguns angolanos, e parece-me que eles falam exatamente como os portugueses. Será que só o brasileiro inventou seu próprio dialeto?
Acontece que a ‘língua brasileira’ é mutante. Palavras e expressões surgem e desaparecem. Algumas expressões, como ‘à beça’ e ‘caramba’, que são do tempo do Império ainda fazem parte do vocabulário familiar, outras palavras da gíria desapareceram e não deixaram sinal. Uma vez, conversando com alguns jovens eu usei a expressão ‘pra frentex’, que na minha adolescência (parece que foi ontem) significava ‘para frente’, ‘vanguarda’, e eles pensaram que eu estava falando algum idioma estrangeiro. A nossa língua é realmente ‘uma pândega’.
Publicado na Folha Metropolitana em 11/11/2011
Xingar a escuridão não faz nascer a luz
Nós brasileiros podemos nos consolar com os espanhóis. Eles também votaram inconscientemente, movidos pela ira contra a crise que assola o país, reflexo da crise mundial. É claro que não me atrevo a dar palpite sobre qual seria o melhor candidato, mas eles não votaram na direita por julgarem que Rajoy era melhor do que Rubalcaba, mas apenas para demonstrar sua ira contra o atual primeiro-ministro, o socialista Zapatero, que tomou medidas de corte de gastos para debelar a crise.
Acontece que o candidato de direita anunciou, de maneira honesta, que se eleito reduziria os gastos. Votaram de pura e inconsequente ira, como quem tropeça numa pedra e xinga a mãe dela. Se a crise não for debelada, nas próximas eleições votarão novamente no Partido Socialista, para vingar-se de Rajoy. Resta saber que gastos serão cortados. Não sei se na Espanha, como aqui, há orgia de gastos em cargos e benesses para beneficiar os apaniguados do governo.
Nós aqui também costumamos votar apenas para demonstrar nossa raiva contra os eternos desmandos dos governantes, independente de partidos. Votamos em Tiririca, Clodovil, Enéas e outros tipos folclóricos, como a dizer que todos são a mesma porcaria. Acontece que esses tipos em quem descarregamos nosso protesto são candidatos de fato, se elegem e tomam posse, tornando ainda menos sério o já desmoralizado Legislativo. No passado, antes da urna eletrônica tínhamos que escrever o nome e o número do candidato. A coisa tinha mais graça, pois votava-se no macaco Tião, no rinoceronte Cacareco, no bode Cheiroso. Esses ‘candidatos’ não tomavam posse, o voto era anulado. Podíamos também escrever na cédula palavras de ordem ou piada. Afinal, se nenhum dos candidatos nos agrada nada mais legítimo do que anular nosso voto. Embora existam candidatos sérios em todos os partidos e votar neles seria a melhor forma de aprimorar a nossa salada política. Nas eleições majoritárias também costumamos votar no candidato ‘menos pior’ para derrotar o ‘mais pior’.
No Egito algumas mulheres protestaram saindo nuas na rua. Dependendo de suas idades e formas físicas, é uma boa ideia. Melhor do que queimar pneus, depredar veículos e edíficios públicos ou privados, ou votar em Tiriricas. Eu não canso de repetir que política não é coisa séria.
Talvez eu seja o analfabeto político de que Brecht falou. Mas a coisa está tão bagunçada que acredito que aqui e agora essa pecha caiba mais nos líderes partidários sem ideologia e nos candidatos que nos pedem voto, sem saber o que fazer com o mandato que lhes outorgarmos.
Publicado na Folha Metropolitana em 02/12/2011
Publicado na Folha Metropolitana em 02/12/2011
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