sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Depois do suicídio

"Desculpem-me, mas eu decidi ir embora deste mundo medíocre. Se só os incompetentes tem vez, não há lugar para mim, que sei o que faço, e preocupo-me em fazer bem. Não culpo a ninguém, culpo apenas a esta Sociedade burra e podre." Leu e releu várias vezes sua carta-suicída, para ter certeza que não daria aos pósteros motivo de críticas. Achou meio pedante, mas - que diabo! - um suicida tem o direito de ser pedante. Aliás, essa era a idéia que tinha de si mesmo e do mundo, mas nunca falara com ninguém para não parecer ridículo. Mas agora que ia
morrer...
Um pouco de razão ele tinha. Desde criança era tido como uma criança esperta e inteligente, com raciocínio rápido, com muitas idéias. Chegou a ganhar um concurso infantil de redação. Queria ser ator, escritor, e muitas coisas mais. Mas nunca chegou a definir exatamente o que queria. Participou de peças teatrais infantís e de grupos amadores adultos, recitava poesias de sua autoria em festinhas, e era muito elogiado. Mas tinha preguiça de estudar, não foi além da sexta
série. Queria fazer de tudo, mas nem pensava em se sujeitar a um emprego rotineiro, com chefe, horário e outras coisas chatas.
Há uma semana o tempo estava carrancudo. Chuvas fortes se intercalavam com garôa intermitente, ventos fortes açoitavam as pessoas e as coisas sem parar. Não saia mais de casa, estava enferrujando. Sem em´prego, sem dinheoiro, a despensa quase vazia, quase sem roupa, e ainda essa chuvinha chata. Tempo propício para um bom suicídio. Pecado? Se Deus se dá o direito de fazer um tempo desses, não tem moral para julgar ninguém.
Colocou a carta em cima da escrevaninha que servia também para as refeições (quando havia), e pôs ao lado todos os troféus e diplomas ganhos em concursos culturais, para que todos vissem que o mundo perderia um gênio. Depois rasgou ao meio a velha carteira profissional, sem nenhum emprego anotado, e jogou por cima. Botou para fora Frederico, o gato que costumava dormir na sua cama, e fechou bem a porta e a janela do quartinho. O bichano protestou, com miados resmungões, sem saber que eram as suas sete vidas que estavam sendo poupadas. Abriu as quatro bocas do fogão e deitou-se na cama, cobrindo-se com os dois cobertores que ainda tinha. Estava frio, e um homem que vai morrer tem direito a certo conforto.
Estava quase dormindo quando sentiu uma mão macia acariciando suas coxas e depois o pênis. Era Marlene Gata, a bela e gostosa morena que chegou a ser sua namorada, e depois se casou com seu melhor amigo, formado em Engenharia, com um bom emprego. Acariciou-a também, primeiro no rosto, depois no pesoço, ceios e... Quando se preparava para abaixar as mãos, a doida saltou da cama e fugiu pela janela. Saiu em sua perseguição, rua afora, mas perdeu-a de vista.
Quando deu pela coisa, já estava correndo, só de cuecas, rasgadas, em plena avenida Paulista. Mas em vez de carros correndo, o que viu eram tranquilas vacas pastando. Passou entre elas e começou a subir a ladeira Porto Geral, que se tornava cada vez mais longa e íngreme. Passou por vãrios amigos a quem emprestara dinheiro e nunca pagaram, e eles nem lhe deram atenção. Passou também por pessoas a quem devia dinheiro, que o olharam interrogativamente. Em certo momento viu, descendo a ladeira o dono da empresa que o demitira após seu primeiro
mês de trabalho, sem registrá-lo em carteira. Pensou em chutar-lhe a imensa barriga, mas não fez. Depois vinha descendo o dono da lanchonete que não fiava mais porque sua conta estava muito grande. Carregava uma bandeja cheia de petiscos. Catou uma coxinha e saiu correndo ladeira acima. Quando percebeu estava na porta do céu. Deus apareceu, carrancudo, perguntando o que fazia alí, naquela hora, só de cuecas.
Agarrou no colarinho do Todo Poderoso e gritou: "Porque Você me abandonou? Eu não mereço isso." Levou um empurrão e caiu do céu. Teria se esborrachado se não acordasse naquela hora.
Um sól forte mostrava sua luz pelas frestas da veneziana, tentando compensar tantos dias de chuva. Enfiou a mão debaixo do travesseiro e encontrou um maço de cigarros mata-rato, ainda com um cigarro dentro, todo amassado. Na cadeira que servia de criado-mudo havia uma caixa de fósforos, com um palito. Acendeu o cigarro, tossiu e percebeu um leve cheiro de gás. Lembrou-se da noite anterior, e admirou-se por ainda estar vivo, principalmente após ter acendido o cigarro. A casa deveria ter voado pelos ares.
Levantou-se preguiçosamente, deu uma olhada em torno, e viu que as quatro bocas do fogão estavam abertas, mas o gás havia acabado, talvez nos primeiros minutos da noite.

2 comentários:

Helena disse...

Adorei este. Muito, muito bom...

Naum sei porque mas tive uma crise de riso quando li "Pecado? Se Deus se dá o direito de fazer um tempo desses, não tem moral para julgar ninguém."

Nossa, que tirada!

Marcker. disse...

Tive o enorme prazer de conhecê-lo a algumas horas atrás no Teatro Municipal de Mauá. Que cativante foi a experiência!

Texto interessante, adorável.

Meus parabéns!