quarta-feira, 23 de julho de 2014

Meu par de sapatos

            Eu devia ter uns sete ou oito anos quando meu pai me comprou um par de sapatos. Até então eu só andava descalço durante o dia, brincando na chácara onde morávamos, trepando em goiabeira e catando goiaba, cavando a terra com as mãos ou uma colher velha, fazendo bonecos de barro. Ou catando esterco de vaca para meu pai adubar a sua horta. À noite eu, meus irmãos e a prima que morava conosco lavávamos os pés no tanque, com sabão, e calçávamos tamancos. Depois jantávamos e íamos dormir. Era uma vida sossegada.
            Quando mostraram os sapatos novos eu queria calçá-los imediatamente. Minha mãe falou que eu os estrearia quando fôssemos à casa da tia Wally. Era a nossa tia rica, morava em São Paulo, na Aclimação. Era a irmã mais velha do meu pai, e pelo menos uma vez por mês íamos visitá-la. Nós, crianças, gostávamos da comida dela, dos doces que ela sempre tinha, e dos carros que víamos passar no trajeto. Eu gostava também do seu banheiro, da descarga, do papel higiênico, que me parecia o máximo de chic. A partir de então, a próxima visita seria também a oportunidade de estrear meu primeiro par de sapatos.
Aquele mês parece que durou uns noventa dias. Mas felizmente chegou o feliz dia, e todo contente calcei meus sapatos novos. A alegria durou pouco. Meus pés, acostumados com a liberdade reclamaram, e doeram muito. O alívio foi quando chegamos à casa dela e eu pude descalçar. À noite, na hora de voltar, vim descalço. Minha tia não tinha um par de tamancos para emprestar.
            Por que estou me lembrando disso agora? É que tenho medo que a Copa do Mundo seja o par de sapatos novos do menino Brasil A diferença é que parece que não estamos esperando ela como a mesma ansiedade das copas anteriores. Ou com a mesma ansiedade com que eu esperava o dia de visitar a minha tia.

Folha Metropolitana, 25/04/2014

cachorros

Sol de inverno, sol bonzinho
que chegabem de mansinho
depois esquenta de vez.
Depois faz um calorão
como pedindo perdão
pelo frio que ànoite fez.

Os cachorros viralatas
depois da noite sofrida felizes, deitam-se ao sol.
Não pensam no fim do mundo,
no alto custo de vida,
na final do futebol,
querem o sol, simplesmente.

Ao seu lado passa gente.Fortemente agasalhados
passam todos apressados
para não perder a hora.

O sol não lhes interessa,
seudia-a-dia tem pressa.
Suas contas atrasadas,
suas vidas mal passadas,
sua angústia sem socorro...

Ah, se o sol nascesse pra todos!
Ah, se fôssemos cachorros!


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